Genivaldo Amorim – 900 Palavras em carne viva

A pesquisa artística, e consequentemente a produção visual de Genivaldo Amorim, se projetam destituídas de uma transitoriedade precisa a partir de construções visuais com uma relatividade constitutiva. Manifestos visuais projetados para engendrar cartografias que contaminam (e se contaminam) e expandem territórios artísticos, culturais, sociais.

Os tensionamentos  formais e conceituais involucrados nesses processos de concepção, criação e exposição das obras de arte evidenciam e provocam dinâmicas e imensuráveis tessituras de fenômenos  em construção. Essas movimentações ficam evidentes na definição que faz Amorim de sua pesquisa:

Minhas obras e projetos artísticos nascem a partir de demandas diversas com as quais me proponho lidar de alguma forma. Essas demandas vão desde uma simples ideia, palavra, frase ou expressão, até espaços e situações em que a obra pode tanto formar um amálgama, ou um corpo estranho ativador, provocador. Como cada projeto é instrumentalizado de acordo com sua natureza, uma série de materiais e procedimentos são utilizados, o que torna necessária a utilização de alguns elementos, como a cor e a organicidade formal, que perpassam a produção, provendo estabilidade e coesão. Eu nunca me preocupei muito em situar minha produção dentro de alguma modalidade artística específica na arte contemporânea, assim como acredito que um olhar de fora sempre é mais eficiente em identificar melhor essas sedimentações do que o meu próprio olhar.

A projeção dessas sedimentações a serem olhadas e usufruídas denotam a pluralidade e o viés democrático das obras do artista. Carne Viva, referência a uma série de obras do artista de 2003, para sentir, explorar, deglutir. Carne viva transfigurada em realidades, metáforas e discursos que circulam pela presença literal dos materiais e suas particularidades, pelas simetrias e/ou assimetrias estruturais e subjetivas, pela movimentação cromática disforme e pelas projeções associadas a outras áreas do conhecimento. Esses apontamentos referenciais sugeridos são reforçados sensorialmente pela disposição espacial das obras ao estruturar visualmente o conjunto como um todo: composição, espacialidade, cromatismo. A insistência e permanência da cor vermelho acentua a vulnerabilidade na literalidade interpretativa ao mesmo tempo que reforça as relações com o espaço arquitetônico e desenham níveis de assimilação crítica, incluindo a simbólica, a partir das Artes Visuais.

Já no texto da exposição Espécies Nativas [2022] pontuava que as instalações de Genivaldo Amorim – como toda sua pesquisa – evocam alfabetos onde sujeito e objeto se diluem em definições potencialmente inconclusas pela transitoriedade/maleabilidade  das alusões, as emanações conceituais que emergem das tentativas do artista de reconfigurar arquétipos nas suas construções visuais. Reconfigurações que surgem e se projetam dos processos de apropriações, em hibridações formais, conceituais e espaciais que hetereotopicamente emergem como manifestos visuais a partir dos embates permanentes do artista com a matéria, as parcerias, os contextos, com os conflitos culturais e sociais que o (e nos) atingem.

Revela-se, então, que a obra de arte é um meio através do qual o homem pretende revelar sua percepção do tempo e do espaço, e como esta busca é feita através de uma síntese que implica a percepção do presente, a memória do passado e antecipação do futuro, a partir de “[…] dados que serão demarcados, ou então limpos, varridos, amarrotados, […]” (Deleuze). Dados concebidos como enigmas a serem desvendados pelo espectador. Enigmas como atravessamentos que aludem à vida. As alegrias e as contradições reveladas metafórica e/ou literalmente e que vislumbram sentimentos múltiplos entrelaçados nos manifestos visuais, seja nas peculiaridades de cada obra, seja  nos diálogos sugeridos no conjunto de obras.

Assim o conjunto arquitetado de manifestos visuais, e cada um deles, funciona como colmeia e casulos que inoculam interrogantes plurais: cor (vermelho recorrente e associativo), grafismos, cartografias, verticalidade pulsante, insistência exoesquelética para tentar forçar e provocar suntuosidade espacial irregular. Ao discorrer sobre as relações cromáticas, estruturais, compositivas, processuais e conceituais possíveis nas obras de arte, sugerem-se jogos fabulatórios na percepção visual: avanços e recuos, sons e cores, volumes, formas e movimentos livres no compromisso de representar. É o modo [re]estruturado, e para o além, da representação. Possibilitando visualizar o mundo como uma revelação e não como uma representação, e despertando sensações possíveis de vê-lo pela primeira vez;  ao gerar no espectador vivências de surpresa e descoberta de mobilidade e conexões, de cores e penumbras, de cartografias cromáticas em movimento. Isso ao confabular com a mesma relevância obras de arte & espaço arquitetônico & espectador. Transformando-os e adequando-os a contextos plurais, delineando itinerários subjetivos flexíveis em concordância com o nível de representação das questões abordadas e sua expressão artística no contexto artístico, cognitivo e cultural. Abordagens que polifonicamente  conjuram à sedução sensorial, como amálgama entre estética e conceito, como sopros de poesia, música e magia que ratificam indissoluvelmente que estética é, seguindo os preceitos do filósofo Jacques Rancière, “uma configuração específica” do domínio da arte que precisamos aprender a ler.

900 palavras em carne viva pretende se articular para desvendar degraus em construção dos processos de criação artística de Genivaldo Amorim, de suas convicções, de seu ativismo e militância, de sua atuação e construções no cotidiano como artista e ser humano, entrelaçando interdisciplinaridade e instrução, esta última como a ferramenta primordial no desenvolvimento cultural da humanidade.

 

PhD Andrés I. M. Hernández
Curador, Crítico e Professor
São Paulo, verão de 2023

 

 

Referencias bibliográficas:
DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da sensação. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 2007
KRAUSS, Rosalind. La originalidad de la Vanguardia y otros mitos modernos. Madrid: Alianza Editorial, 1996.
RANCIÈRE, Jacques. O inconsciente estético. São Paulo: Editora 34, 2001.