Quando a arte toca o real: reflexões sobre arte e vida nas obras de Genivaldo Amorim

Arte sempre foi um reflexo da sociedade, e, ao longo da história ocidental, foi elaborada e utilizada como forma de controle social pelas elites. Durante o período do Renascimento, as igrejas eram os principais mecenas da arte, o que lhes permitiam controlar o que era produzido e como era exibido, influenciando assim a constituição de uma partilha estética de um social comum. Já no período neoclássico, o estado passou a ser o protagonista, fomentando a arte como ferramenta de construção ideológica de manutenção de poder. No período da arte moderna, o protagonismo dos mecenas foi deslocado para os burgueses, que financiavam a produção de obras para reforçar sua posição social e cultural.

Diante destas características das quais designam a forma como lidamos com trabalhos de arte, a conexão entre arte e poder resultou consequentemente na desconexão da arte com a vida cotidiana. Deixou de ser uma forma de expressão popular e se tornou um privilégio das elites, com sua produção e exibição controladas e restritas. Dessa forma, a arte perdeu sua capacidade de inspirar e tocar a maioria da população, tornando-se uma forma de poder e status em vez de uma expressão autêntica e transformadora.

A influência do conceito ocidental de arte continuou a se estender globalmente, enquanto a tolerância estética se ampliou. O que é chamado de arte se tornou cada vez mais mercantilizado, estabelecendo-se como produto de luxo para a elite financeira. Obras de arte se tornaram objetos de desejo para ricos, agora mais do que nunca, sendo vistos como veículo de investimento confiável, o que pouco contribui para o potencial da arte como agente de mudança social emancipatória.

É a partir dessas questões que analisamos uma parte dos trabalhos e projetos produzidos pelo artista visual Genivaldo Amorim, os quais têm como objetivo discutir e criticar os limites dos espaços convencionais destinados à arte. Seu interesse resulta em propostas que escapam destes circuitos convencionais e alcançam pessoas, territórios e situações onde arte não é esperada. Muitos de seus trabalhos artísticos, acabam movimentando uma espécie de pós-vida, ao adquirir uma utilização material no cotidiano das pessoas após ser exposta nas instituições. Ou seja, a insatisfação do artista com o contexto de apresentação artística dentro de um sistema do cubo branco, faz com que ele utilize outras estratégias de tentar inserir seu trabalho no cotidiano da vida real.

Como exemplo, temos a instalação Bicho de corpo mole, mas de pele boa (2015). Trata-se de um site-specific do qual Genivaldo Amorim instala esculturas feitas com tecido vermelho de modo que ocupem toda a área de uma sala, posicionadas com cabos de nylon no teto, os objetos apresentam uma sensação de flutuação. Contudo, após o término da exposição, todas essas esculturas de tecido vermelho são desmontadas e transformadas em roupas que são distribuídas para diversas pessoas. A operação dessa estratégia traz a pós-vida da obra para o campo da vida real. Nas palavras do próprio artista:

Eu gostaria muito que parte dessas roupas fossem parar no corpo de pessoas que nem sabem o que é arte, que não tem acesso à arte. Eu não me incomodo que uma pessoa rica as usem, mas eu não quero de jeito nenhum que o trabalho fique restrito às pessoas privilegiadas socialmente e economicamente, perpetuando a ideia de que, afinal, arte, de um modo geral, sempre foi artigo de luxo, para poucos. Me interessa muito esse encontro, esse diálogo estranho entre o meu trabalho e pessoas não habituadas à arte, à cultura, embora eu tenha plena consciência de que se o trabalho fizer “sucesso”, ele fatalmente será absorvido pelas classes mais altas. Pode ser, mas em algum lugar do processo eu quero que ele chegue a outros lugares, a outras situações longe do jet set.

Desta forma, o espaço expositivo se torna um ponto de transição, pois o trabalho adquire a capacidade funcional das roupas, se adapta aos corpos e transita pelo mundo, oferecendo novas possibilidades de acesso a locais e situações nas quais as obras não conseguiriam alcançar anteriormente. Além disso, a obra possibilita uma acessibilidade que muitas vezes não é permitida, sobretudo em países com grande desigualdade social, como no caso do Brasil. Este aspecto tangencia as questões sociológicas de onde o trabalho é exposto e ativado. Na realidade brasileira, um grande contingente não consegue acessar espaços culturais por diversos fatores. Portanto, Genivaldo Amorim se preocupa em tentar, mesmo que minimamente, diminuir estas lacunas sociais.

Um trabalho que pode exemplificar bastante esta situação é a instalação O frio do norte é mais frio do que o frio do sul (2019). Apresentada pela primeira vez na exposição individual Do outro lado do vidro vejo paisagens alheias no CCBM em Maputo, a instalação discute sobre as desigualdades sociais e culturais entre países do hemisfério norte e sul.. A obra é composta por diversos cobertores etiquetados com o nome de instituições de arte de países do norte da Europa e expostos no chão do espaço da instituição. Após o período de exposição, esses cobertores adquirem uma pós-vida e são doados para moradores de rua da cidade de Maputo, como forma de visibilizar e prestar serviço para as pessoas em situação de vulnerabilidade. Dessa forma, o trabalho reflete sobre a insuficiência dos recursos disponíveis para combater o frio climático, além de evidenciar a desigualdade social existente entre as instituições de arte com pessoas em situação de vulnerabilidade.

A partir desses trabalhos apresentados do artista visual Genivaldo Amorim, é possível observar seu interesse com as dinâmicas de desigualdades sociais existentes dentro do contexto ocidental da arte, e para além disso, demonstra seu desejo em tentar – mesmo com dificuldades – superar esta configuração. Durante a década de 1970, diversos artistas tentaram investir em pesquisas que questionassem o espaço institucional do cubo branco, e, até hoje, muitos tentam quebrar este ciclo de poder. Em muitas sociedades não ocidentais, a palavra arte é inexistente. Não porque a arte não exista de fato, mas porque ela permeia o cotidiano das pessoas, e, logo, a palavra que a distingue de outras atividades é desnecessária. Para essas pessoas, a arte não se isola em espaços seguros e metafóricos, ela toca o real.

 

Allan Yzumizawa
Curador
2023